Desde que me conheço por gente, sou apaixonada por moda. Eu era uma criança, talvez uma das únicas, que trocava os brinquedos pelas roupas. Fui crescendo, o tempo passando e pouca coisa mudando. O saldo de tudo isso? Um guarda-roupa explodindo; a promessa de um ano inteiro sem comprar roupas, sapatos ou afins; a busca por uma nova consciência e um blog para compartilhar essa história com você.


segunda-feira, 26 de julho de 2010

Contradição


Outro dia conversando no MSN com a amiga:

Vica diz:

Ficar sem comprar roupa é monótono.

Vicky diz:

Não é não, é um turbilhão de emoções.

Como assim, ficar sem comprar roupa é monótono? Eu sei que vai parecer muito fútil, mas Oiiii?! Alguém sabe o que eu to passando?

Tem dias que acordo e me acho a pessoa mais forte do mundo, fico filosofando com as coitadas das minhas amigas sobre o consumismo e penso que estou aprendendo que quantidade não significa nada. É basicamente nesses dias que fico totalmente desapegada das roupas que tenho e quero me desfazer de metade do meu guarda-roupa. Num impulso desses outro dia tirei 9 calças jeans e tratei de dar logo, antes que o sentimento passasse e eu as colocasse de volta. Fico pensando que está sendo muito fácil e até topo ir fazer compras com algumas amigas só para dar uma consultoria de moda.

Mas há os outros dias, como hoje, que são terríveis. O shopping, que sempre foi um lugar de carregar as baterias, comprar umas coisas e sair mais feliz, virou um amigo traidor que me apunhalou pelas costas. O final das estações vira realmente uma tortura. Fico olhando aqueles tapumes nas vitrines das lojas, sobreposto por aquele palavrão escrito em letras garrafais: LIQUIDAÇÃO! Me dá até arrepio! A liquidação funciona assim na cabeça de um consumista: “se não comprar agora, nunca mais vou ter a oportunidade de comprar uma bota de ski por esse preço, e quem sabe ter uma bota de ski não seja uma ótima oportunidade de aprender a esquiar?” Entenderam? Não? Não faz muito sentido mesmo. Por isso prometi ir ao shopping só depois que passar todos esses saldões, porque senão vira um ato masoquista, sinto como se estivesse me chicoteando, me torturando, ou algo parecido.

Ficar sem comprar roupas é assim, cheio de altos e baixos, cheio de sentimentos variados e contraditórios. Isso pra mim não tem nada de monótono. Monótona era a minha rotina de compras:

- Entra na loja, sente uma euforia, prova tudo, quer levar tudo e fica a melhor amiga da vendedora;

- Efetua a compra, não levando tudo que queria mas muito mais do que devia. Sai feliz;

- Chega em casa, se sente culpada, esconde a compra e jura que nunca mais vai fazer isso;

- Entra na loja, sente uma euforia... e assim vai.


sexta-feira, 23 de julho de 2010

Adorei


...Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: 'Estou apenas fazendo um passeio socrático.'

Diante de seus olhares espantados, explico: 'Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia:

"Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz !"

(Frei Betto)

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Jobim e eu

Quem já viu o filme (ou leu o livro) “Marley e eu” sabe o quanto é impossível não se divertir com as trapalhadas do Marley e não se comover com o final. Eu amo bicho e tenho a Kira, uma Pit Bull que acha que é um poodle. Ela é minha fiel companheira, quando era pequena, aprontou bastante e vendo o filme até me identifiquei. Porém, quando há alguns meses ganhamos do meu Irmão o Jobim - um boxer que hoje está com dez meses -, posso dizer que a Kira e até o próprio Marley viraram fichinhas perto dele.

Depois que o Jobim veio morar na nossa casa, ele nos ensinou muitas coisas, tais como: ter um boxer e um jardim sem buracos é algo que não existe, assim como plantas e vasos inteiros; roer é algo muito legal, mas roer o que é proibido é muito mais excitante; roupas ficam melhores espalhadas pelo pátio do que no varal; não adianta colocar pimenta em cadeiras, mesas, abajures se não para torná-los mais apetitosos; antes de dar um passeio de bicicleta, confira se os pedais e o banco não estão roídos; fazer xixi no chão enquanto brigam com você é uma boa forma de desviar a atenção; e educar um cachorro, digamos assim, não muito inteligente, é algo muito, muito difícil.

Eu nunca tinha visto um cachorro com poder de destruição tão grande. O Bruno fica muito brabo e sempre faz o papel do pai durão que tenta educar; já eu faço o da mãe permissiva que tenta colocar panos quentes. Fico pensando no encantador de cães indo lá em casa, avaliando o comportamento do Jobim e o nosso. Certamente ele nos daria uma lição de moral, segundo ele o problema está sempre dos donos. Porém, esses dias o Jobim passou dos limites: eu estava sentada na mesa, tirei os meus sapatos distraída e, na minha cara, ele o pegou, um pipitu rosa, que foi o meu preferido na última estação.

Quando vi o sapato já estava todo roído, fiquei olhando e foi passando um filmezinho de todas minhas roupas que ele destruiu até então e ai me subiu uma ira. Saí atrás dele gritando "vou te matar, vou te matar” e vi esse cachorro correr como nunca. Ainda bem que não consegui pegá-lo, porque era morte na certa. A medida que fui ficando mais calma, a irritação foi passando, eu até ri da cena. Fico pensando nos vizinhos ouvindo uma louca gritando pelo pátio. Deviam achar que eu estava atrás do Bruno. Que vergonha.

Tenho contado com a colaboração de todos, principalmente das pessoas mais próximas, como as minhas amigas que estão me dando muita força, e ter um cachorro destruindo as minhas roupas não estava nos meus planos. Ele ainda por cima é exigente, prefere as peças mais caras.

Enfim, quando ele era pequeno era tão bonitinho, nunca diria que aquele cãozinho com jeitinho de rejeitado ia me surpreender tanto. Minha mãe me diria: “Quis?! Agora agüenta”. Agüento, mas não dá para devolver, não?

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Aniversário


Sexta feira, 25 de junho, dia do meu aniversário. Combinei com o Bruno que ele não me daria nenhum presente porque eu não estava precisando de nada (entendam que eu não precisar de nada é uma evolução enorme) e afinal acabamos de comprar um terreno e estamos um pouco descapitalizados. Eu disse a ele que precisava ir ao shopping, pois tinha que comprar um presente para uma grande amiga que faz aniversário no mesmo dia que eu. Ele, muito querido que é, viu o meu post aí embaixo e disse que queria me levar ao shopping para me dar de aniversário alguma peça de roupa. É claro que eu não neguei, adorei por sinal, mesmo quebrando uma das regras que diz que, caso eu ganhe uma roupa, não posso pedir nem escolher; mas era meu niver e podíamos abrir uma exceção.

Fomos na a Farm. A loja estava com uma promoção que fazia mais parecer um tudo por 1,99: eram muitas mulheres, todas desesperadas, a loja estava uma bagunça e tinha uma fila enorme no provador. Achei horrível, achei todas umas descontroladas, me senti melhor que elas e quase desisti e fui embora, num ato budístico de desapego. Mas eu ainda não estou tão evoluída assim e tinha a desculpa do presente da Lu para comprar. Comecei a olhar tudo muito calma, estava tranqüila, separando umas roupas e, quando menos esperava, um shortinho que eu tinha separado foi-me surrupiado por uma outra cliente na cara dura. Daí pensei: “isso é uma guerra!”. Eu acabei entrando na guerra, fiquei tão distraída que uma coisa que era para ser feita entre eu e meu namorado na boa virou uma verdadeira jornada em busca das melhores peças. Quando vi, o Bruno dormia no sofá e eu já estava com a metade da loja para experimentar. Que desespero, me rendi e fui para o provador, experimentei, experimentei e à medida que ia gostando das peças a situação ia se complicando, afinal eu ia ganhar somente uma. Depois de meia hora, saí do provador com uma cara de cachorro sem dono dizendo para o Bruno que queria duas peças de roupa, o vestido e o casaquinho... Ele logo cortou o meu barato e disse que teria que escolher somente uma. Quase chorei, fiquei mal, irritada com ele porque, afinal de contas, era meu aniversário e ele teria que fazer as minhas vontades. Acabei escolhendo o vestido. Entreguei para ele muito mal humorada e ambos fomos para o caixa, ele para pagar o meu presente e eu para pagar o presente da minha amiga.

Eu sou uma pessoa que quando quer uma coisa realmente faz de tudo para conseguir. Agindo de uma forma totalmente emocional, coloquei o casaquinho junto com o presente que eu daria à minha amiga e pedi que fosse colocado em pacotes de presentes separados. É, eu estava quebrando a minha promessa, sucumbindo ao meu desejo e ao meu descontrole. Logo que saí da loja me dei conta do que tinha feito. Fui acometida por um sentimento enorme de culpa, fiquei mal, briguei com o Bruno e estraguei a nossa noite romântica. Sabia que teria que reparar meu erro, porque voltar atrás já não dava mais, então resolvi que daria o casaquinho de presente a uma amiga que eu estava devendo um presente, assim arrumaria a situação. Mas o mais difícil ainda tinha de feito, cumprir com o que eu prometi no primeiro post: ser sincera sempre.

Por isso estou aqui narrando o meu louco comportamento. Deixando margem para me julgarem.
Com isso tudo vi o quanto é difícil controlar o meu desejo, a minha vontade, o quanto é difícil dizer não a mim mesma, impor os meus limites. Penso que eu estava indo muito bem e que não precisava me colocar naquela situação, mas tendo me colocado acabei me descobrindo um pouco mais.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Ninguém merece




















Devem estar me sacaneando, mandar um email de liquidação de uma das minhas marcas preferidas dizendo que está TUDO com 50 % de desconto (coisa inédita, por que até então era sempre 40%), um dia antes do meu aniversário. Só pode ser sacanagem.



quinta-feira, 17 de junho de 2010

Borboleta

Na minha casa tínhamos o hábito de sentar na beira da piscina depois do almoço, buscando o sol nos dias frios de inverno. Meus pais tomavam café e eu fazia companhia. Meu pai sempre tinha palavras sábias sobre a vida, e em um desses dias falávamos sobre a morte. Um assunto sempre tão evitado, a morte me dava medo, achava-a triste e sombria, mas nesse dia ele me deu outra perspectiva que eu jamais esquecerei. Eu pedi a ele para que não falássemos sobre esse assunto e ele me disse que eu deveria ver a vida e a morte como consequência de uma coisa muito natural e bonita. Bonita? Pediu que eu fechasse os olhos e que pensasse numa lagarta, na vida da lagarta. Disse que a nossa vida é um ciclo muito parecido com o de uma lagarta. Nós nascemos e aprendemos muitas coisas, nos alimentamos de vivências, de experiências e de sensações como amor, cumplicidade, raiva, inveja, amizade, sentimos e aprendemos a administrar os sentimentos. Quando ficamos mais velhos, aos poucos interiorizamos melhor todas essas experiências, guardando tudo isso num casulo, entendendo o que realmente merece ser guardado, o que realmente tem importância e quem realmente tem importância. Aí ficamos prontos. Prontos para largar o casulo, libertar-se do corpo de lagarta e voar como uma linda borboleta. A morte é o bater das asas de uma borboleta. Achei bonito, poético até, mas na hora não dei tanta importância para aquelas palavras; elas só vieram a fizer sentindo quando, uma semana mais tarde, meu pai sofreu um acidente e faleceu. Ele já estava no casulo e me preparou para entender o que aconteceria, e eu o agradeço.

A vida já me deu muitas coisas para guardar no meu casulo, já perdi as pessoas que mais amava. Mas, à medida que algumas portas se fecharam, janelas, frestas e até paredes se abriram. Foi assim com meu tio, que entrou cada vez mais na minha vida. Ele não tinha filhos e eu não tinha pai, nos encontramos na sorte de sermos parentes. Ele sempre cuidou de mim como uma filha e eu aprendi a amar ele como um pai, meu segundo pai. Mas há alguns dias atrás também o perdi. Ele estava doente, eu sabia que isso aconteceria, mas sempre esperei um telefonema dizendo que tudo ficaria bem, que não precisava me preocupar porque ele estaria ali por muitos anos a me incomodar. Essa ligação não aconteceu. E quando a notícia veio, me senti sem chão, sem chance de questionar se estava certo, por que já estava feito.

Senti o abandono, a ausência e, no meio de tantos sentimentos, saí para caminhar num dia de sol; andei, parei, andei novamente, parei de novo, sentei no chão, não pensei. De repente, uma borboleta pousou em mim. Sim, foi o sinal de que tudo estava bem, um alerta de que não deveria me preocupar, não precisava ficar triste. Fiquei ali sentada, ela pousada em mim, caminhando no meu braço, eu sentindo um abraço. Tão surreal e tão verdadeiro.

Fico aqui pensando que pessoa de sorte eu sou, que bom estar alerta a essas sutilezas da vida. Precisei de um tempo, uns dias para ficar ausente, dei um tempo de todos, dei um tempo de mim. Dei um tempo do blog, achei tão ridículo fazer um blog por um motivo desses. Tudo ficou meio insignificante, tudo pareceu tão sem valor, tão sem sentindo. No momento que resolvi que todas essas coisas não tinham mais importância, vi a importância que elas tinham para mim e lembrei que ainda sou uma lagarta que está apenas descobrindo a vida.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Um quadro no quarto

Quando eu era criança tinha um quadro no meu quarto que dizia “A maior riqueza é contentar-se com pouco”, com a foto de uma menininha com roupa de camponesa levando na mão uma cesta de palha cheia de flores. Eu o achava muito bonitinho, uma frase de efeito, mas a verdade é que nunca soube o que era me contentar com pouco. Hoje em dia, a julgar pelos valores sociais modernos, nenhuma mãe em sã consciência colocaria um quadro desses na parede do quarto do filho, a não ser que fosse, digamos assim, meio bicho grilo. Se contentar com pouco é querer pouco da vida, é pensar pequeno; quem se contenta com pouco é medíocre, somos criados para querer sempre mais e nunca se satisfazer. No máximo temos uma satisfação por um momento bem breve. Acha exagero? Pois garanto que você já comprou uma blusa pensando em comprar uma calça, já comprou um carro pensando no próximo, já quitou uma dívida pensando em fazer uma nova. Se você não fez, posso assegurar que eu já fiz tudo isso e ainda faço.

Semana passada recebei um link de várias pessoas diferentes com uma reportagem sobre um economista inglês, Mark Boyle, de 30 anos, que decidiu viver durante um ano sem dinheiro, a fim de demonstrar que, ao contrário do que é consagrado pela economia capitalista, é possível viver sem gastar. Passados 18 meses, ele diz que está tão feliz com a experiência que não pretende voltar para o velho estilo de vida. Fiquei com a história na cabeça a semana toda, fiquei até com dificuldade de escrever por achar que o que eu me propus a fazer é insignificante dentro da necessidade de desaceleração de consumo que o mundo precisa. Mas daí, pensando que tudo começa com um primeiro passo, lembrei que minha amiga Zana, motivada pelo meu blog, decidiu ficar três meses sem gastar. Tudo bem que eu acredite que essa iniciativa veio mais pelo susto que ela levou com a fatura do cartão de crédito do que propriamente pelo meu blog, mas fiquei feliz, por ela e por mim.

Na verdade, qualquer pessoa que se proponha pode fazer a diferença. E para isso não precisa ser tão radical quanto o Boyle, mas uma iniciativa, um gesto, um abrir mão de algo pode já ser suficiente. Foi pensando única e exclusivamente em mim que comecei esse blog, mas é pensando cada vez mais no todo que continuo, e talvez com isso um dia consiga descobrir o verdadeiro significado de “A maior riqueza é contentar-se com pouco”.